Cientistas desenvolveram cordas vocais em laboratório pela primeira vez

Cientistas conseguiram fazer crescer em laboratório o tecido de cordas vocais funcionais pela primeira vez. O tecido foi capaz de produzir sons quando transplantado em animais e sem apresentar sinais iniciais de rejeição. Isto o torna um bom candidato para um futuro transplante, a fim de devolver a voz àqueles que tiveram as cordas vocais danificadas devido à uma doença ou a uma cirurgia.

“É uma descoberta empolgante, porque estes pacientes tem poucas opções de tratamento”, disse Jennifer Long à Science, uma otorrinolaringologista da Universidade da Califórnia, em Los Angeles – EUA, que não estava envolvida no estudo.

As nossas cordas vocais são duas bandas de músculos fortes e flexíveis que estão cobertas por mucosa. Quando nós falamos, forçamos o ar por elas, resultando na vibração que produz o som.

Muitas pessoas perdem a voz temporariamente ou permanentemente devido a cirurgias para a remoção de cânceres ou de tumores benignos na garganta.

A dificuldade de se criar o tecido das cordas vocais se dá justamente por suas características especiais. É difícil conseguir um tecido suficientemente flexível para vibrar, mas que seja forte o suficiente para bater centenas de vezes por segundo.

A equipe começou os experimentos obtendo células de cordas vocais de cadáveres e de pacientes que tiveram as suas laringes removidas (mas que não tenha sido devido a um câncer). Com este material, os pesquisadores isolaram dois tipos de células que compõem as mucosas – os fibroblastos e as células epiteliais – e colocaram em uma placa de Petri, antes de colocá-los em um modelo em 3D de colágeno.

Duas semanas depois, estas células tinham formado uma estrutura complexa, que tinha a aparência e o comportamento do tecido que compõe as cordas vocais normais.

Para testá-lo, a equipe transplantou este tecido em uma laringe de um cão falecido, de forma que uma das bandas fosse a do animal e a outra fosse do tecido feito em laboratório. Quando o ar foi impulsionado através da laringe, o tecido apresentou uma vibração semelhante à de uma corda vocal natural.

Tecido de corda vocal feito em laboratório (tecido esbranquiçado, abaixo da abertura) transplantado em um órgão de cachorro. Fonte: Nathan Welham, University of Wisconsin.
Tecido de corda vocal feito em laboratório (tecido esbranquiçado, abaixo da abertura) transplantado em um órgão de cachorro. Fonte: Nathan Welham, University of Wisconsin.

À fim de testar possíveis rejeições no transplante, parte deste tecido foi transplantado para camundongos modificados para ter sistemas imunológicos humanos. Este teste não apresentou rejeição, o que indica que este tecido tem propriedades imunoprivilegiadas, o que significada que não desencadeia uma resposta imunológica ao hospedeiro.

A única diferença encontrada, de acordo com os pesquisadores, foi que o tecido natural aparenta ser mais maduro, o que é natural, visto que ele continua se desenvolvendo nos 13 primeiros anos de vida de uma pessoa.

O próximo passo é transplantar este tecido em um animal vivo e vê-lo sobreviver e funcionar, antes que os testes em humanos possam começar.

Outro ponto que deve ser estudado é o fornecimento de células para a criação do tecido em laboratório, pois é difícil encontrar laringes removidas que não apresentaram câncer. Mas existe outra equipe que já tenta obter estas células a partir de células-tronco.

No vídeo abaixo, em inglês, você pode ver o tecido de cordas vocais projetado em laboratório pelos pesquisadores:

Ainda falta muito tempo para que este transplante seja uma opção para os pacientes que perderam a voz, mas traz uma grande esperança para o futuro.

Fonte: Science AlertScience Translational Medicine.

Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo - UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo - UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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