Estudos de câncer discordam sobre os mecanismos de malignidade

A maioria dos casos de câncer resultam de fatores evitáveis, tais como produtos químicos tóxicos e radiação, como afirma um estudo publicado online na revista Nature em 16 de dezembro de 2015 (WU et al., 2015). O artigo tenta refutar o argumento que surgiu no início deste ano, quando um relatório na Science concluiu que as diferenças de processos celulares inerentes é a principal razão para que alguns tecidos se tornem cancerígenos com mais frequência do que outros (TOMASETTI e VOGELSTEIN, 2015).

O trabalho levou a afirmações de que certas formas de câncer são principalmente o resultado de “má sorte”, e sugeriu que estes tipos seriam relativamente resistentes aos esforços de prevenção. “Não há dúvida do que está em jogo aqui”, diz John Potter, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, Washington, que estuda nas causas de câncer. “Isso informa se estamos ou não gastando energia na prevenção.”

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A proliferação de células do sangue na leucemia é apenas um exemplo de crescimento de tecido desmarcado associado com o câncer, mas a medida em que os fatores externos e internos conduzem este processo está aberto ao debate. Fonte: Nature.

Em seu artigo na Science, o matemático Cristian Tomasetti e o pesquisador do câncer Bert Vogelstein, da Universidade Johns Hopkins – em Baltimore, Maryland – calculou a relação entre o número de divisões de células-tronco e o risco de desenvolvimento de câncer em vários tecidos. Cada instância de divisão celular vem com um risco de que o DNA será copiado incorretamente, levando a mutações – algumas das quais poderiam contribuir para o câncer. A análise da dupla encontrou uma correlação: quanto mais divisões de células-tronco ocorrerem em um determinado tecido ao longo da vida, mais provável que se tornem cancerígenas.

Tomasetti e Vogelstein, em seguida, classificaram tipos de câncer de acordo com o grau da variabilidade do risco devido às divisões das células-tronco em relação a algum fator ‘extrínseco’, como a exposição ambiental a agentes cancerígenos. Os autores argumentaram que, apesar de alguns tipos de câncer claramente terem fortes ligações ambientais – tais como câncer do fígado, causado pela infecção por hepatite C ou o câncer de pulmão, decorrente do tabagismo – havia outros para os quais a variação foi explicada principalmente por defeitos na divisão das células-tronco. Nestes casos, eles argumentaram que a detecção precoce e o tratamento seriam mais eficazes do que a prevenção.

UMA TOMADA DIFERENTE

Hannun e sua equipe também usaram outras linhas de evidência para tentar identificar a contribuição dos fatores ambientais de risco de câncer. Eles analisaram os dados epidemiológicos mostrando que, por exemplo, as pessoas que migram de regiões de menor risco de câncer para aquelas com maior risco de desenvolver a doença logo desenvolveram a doença com taxas compatíveis com as suas novas casas. Os autores também examinaram os padrões nas mutações associadas a certos tipos de câncer: a luz ultravioleta, por exemplo, tende a criar uma assinatura reveladora de mutações no DNA. E usaram outros modelos matemáticos, ampliando o conjunto de dados utilizado no trabalho anterior para incluir o câncer de próstata e de mama – dois dos cânceres mais comuns.

Os modelos sugeriram que mutações durante a divisão celular raramente acumularam-se ao ponto de produzir o câncer, mesmo em tecidos com taxas relativamente elevadas de divisão celular. Em quase todos os casos, a equipe verificou que alguma exposição a carcinógenos ambientais ou a outros fatores seriam necessários para provocar a doença.

Tomasetti responde que ele nunca teve a intenção de explicar por que os cânceres se desenvolvem. Sua análise, diz ele, foi baseada na divisão normal de células-tronco no tecido saudável e foi concebida apenas para explicar por que alguns tipos de câncer são mais prevalentes do que outros. Ele também argumenta que os modelos criados por Hannun e seus colegas fazem muitas suposições e deixam de incorporar algumas características de crescimento do tumor.

Alguns especialistas em prevenção do câncer saudam o artigo da Nature por causa de temores de que o público – e, possivelmente, também os financiadores da investigação científica – poderiam concluir que  esforços na prevenção não valem a pena, diz Edward Giovannucci, que estuda a prevenção do câncer, de Harvard T. H. Chan School of Public Health em Boston, Massachusetts.

Fonte: Nature.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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