Camundongos “gagos” lançam luz sobre a gagueira humana

Cerca de 70 milhões de pessoas em todo o mundo gaguejam quando falam, e isto não é exclusividade dos seres humanos. Na Conferência da Sociedade de Neurociências, que aconteceu este ano em Chicago, nos EUA, cientistas mostraram que os camundongos também podem “tropeçar” nas suas vocalizações.

Nos seres humanos, a gagueira tem sido relacionada com uma mutação no gene Gnptab, que mantém os níveis básicos das funções celulares. Para comprovar esta curiosa ligação genética, os pesquisadores decidiram induzir a mutação em camundongos. Eles suspeitaram que isto provocaria uma versão da gagueira em camundongos, mas decifrar os guinchos gagos dos animais não é tarefa fácil. Para isto, os pesquisadores criaram um modelo computadorizado para registrar a gagueira por meio de uma análise estatística das vocalizações.

Gagueira infantilApós fazer a mutação nos animais, os pesquisadores analisaram o impedimento “verbal” através de duas características básicas: menos vocalizações em um determinado período de tempo e os intervalos mais longos entre cada vocalização. Por exemplo, em um minuto, os seres humanos gagos fazem 90 vocalizações, enquanto os não-gagos fazem 125.

Usando estes parâmetros para avaliar as vocalizações dos camundongos, os pesquisadores eram capazes de identificar a gagueira nos animais em um período de 3,5 minutos. Como esperado, os camundongos que transportam o gene mutado tiveram muito menos vocalizações, com mais lacunas no “discurso”, em comparação com os não modificados da mesma ninhada – os camundongos com mutações Gnptab tinham cerca de 80 vocalizações em comparação com 190 nos camundongos não-mutantes.

Os resultados não só fornecem evidências para o papel do gene Gnptab na gagueira, mas também mostram que a sua função permanece relativamente consistente em múltiplas espécies. Os cientistas dizem que o paralelo genético poderia ajudar a revelar os mecanismos neurais subjacentes à gagueira, seja ele guinchando ou falando.

Fonte: Science Magazine.

Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo - UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo – UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

  • Gustavo

    Qual o percentual de casos de gagueira que podem ser explicados por mutações nesse gene Gnptab ou na via metabólica dele? Estima-se que só no Brasil há dois milhões de pessoas com gagueira. Desses dois milhões, quantos já podem dizer que sua gagueira foi finalmente explicada pela ciência?

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