Para tratar o coração, comece com o intestino

Microrganismos intestinais quebram os nutrientes essenciais de colina (um nutriente solúvel em água, geralmente agrupado dentro do complexo das vitaminas B), abundante na carne e em ovos, em um composto que conduz ao endurecimento das artérias. Um candidato a droga que impede que os microrganismos façam esta conversão química pode reduzir tanto a quantidade deste composto, quanto a extensão do dano arterial em camundongos, como relatam os pesquisadores na revista Cell de dezembro.

Manipular bactérias do intestino para tratar várias doenças é promissor clinicamente, diz o médico e microbiologista Martin Blaser, do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova Iorque. “É uma ideia muito interessante que pode mudar as futuras terapias que estão disponíveis para os médicos”. Ele observa que este estudo aborda uma doença particularmente importante e comum: a aterosclerose, em que placas de gordura se acumulam dentro das artérias, aumentando o risco de ataque cardíaco e do acidente vascular cerebral.

Algumas bactérias encontradas em ambos,  camundongos e vísceras humanas, transformam a colina em trimetilamina (TMA). No fígado, a TMA é transformada em um composto que entope as artérias que o co-autor do estudo, Stanley Hazen, e seus colegas anteriormente ligaram ao risco de aterosclerose em seres humanos.

Agora, os pesquisadores descobriram que um composto tipo colina poderia ser utilizado como um medicamento para bloquear a produção de TMA. Ao invés de alimentar a atividade da tomada de TMA das bactérias, a droga potencial suprime algumas das enzimas que os microrganismos usam para transformar colina em TMA. Esta droga, apelidada de DMB, limita a quantidade de TMA que camundongos e bactérias do intestino humano produzem. Em camundongos alimentados com uma dieta rica em colina ou outro precursor de TMA, aqueles que receberam a droga na água potável desenvolveram menos produtos químicos formadores de placas no sangue do que aqueles que não receberam a droga. Uma dieta rica em colina causou placas que se acumularam nas artérias dos camundongos geneticamente predispostos a aterosclerose. Mas tratar estes camundongos completamente  com DMB impediu o entupimento da artéria, diz Hazen.

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Camundongos predispostos a doenças cardíacas e alimentados com uma dieta rica em colina – um composto encontrado em carnes e ovos – teve o acúmulo de placas em suas artérias (na esquerda: placas em vermelho e artéria em azul). Os camundongos também receberam uma droga para evitar que seus microrganismos do intestino quebrassem a colina e, como resultado, tiveram muito menos entupimento das artérias (à direita). Fonte: Science News.

O composto de drogas – que os pesquisadores descobriram ocorrer naturalmente em alguns azeites e vinhos tintos – não causou quaisquer efeitos nocivos nos camundongos após quatro meses de tratamento e foi rapidamente quebrado e eliminado dos corpos dos camundongos. O composto também não era tóxico para as bactérias intestinais. A manipulação de microrganismos do intestino sem matá-los poderia minimizar o risco de desenvolvimento de bactérias resistentes aos medicamentos, diz Hazen, cientista médico da Clínica Cleveland.

Mas não há nenhuma garantia de que os microrganismos do intestino não desenvolverão resistência aos medicamentos, diz Blaser. O TMA é uma fonte de energia para alguns microrganismos e certamente bactérias poderiam evoluir novas formas de fazer o composto, diz ele. A equipe percebeu que o tratamento medicamentoso mudou os números relativos de certas espécies bacterianas no intestino do camundongo, aumentando a presença de algumas e diminuindo a de outras. Essa mudança foi pequena, diz Hazen, mas indica que a droga leva à seleção de algumas bactérias em detrimento de outras. “Eu estava realmente surpreso com isso, mas, novamente, a comunidade microbiana é incrivelmente dinâmica”, diz ele.

Blaser diz que é necessário mais investigação para determinar se a droga experimental funcionará em humanos. O trabalho futuro também pode descobrir outros compostos que são ainda mais eficazes em interromper a produção bacteriana de substâncias químicas que entopem as artérias, diz Hazen.

Fonte: Science News.

 

 

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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