Genes de resistência ao antibiótico colistina vem se espalhando pelas bactérias

Pesquisadores descobriram que bactérias ao redor do mundo estão compartilhando um gene que confere resistência à colistina, um antibiótico de “último recurso”. Os relatórios da descoberta vieram da China, e foram seguidos por achados de resistência semelhante em países como Dinamarca, Países Baixos, França  e na Tailândia .

Embora os resultados sejam preocupantes, eles podem não ser tão catastróficos como os relatórios de muitos meios de comunicação têm sugerido, porque a colistina é apenas um dos vários antibióticos que raramente são usados ​​em seres humanos. A descoberta “é ruim, mas não é apocalíptica”, diz Makoto Jones, um médico de doenças infecciosas da Universidade de Utah, em Salt Lake City – EUA.

A colistina foi desenvolvida na década de 1950, de uma classe de compostos chamados polimixinas. Ela é conhecida como um último “resort” de drogas – os médicos evitam usá-la quando possível – porque tende a danificar os rins dos pacientes, diz o epidemiologista Lance Price, da Universidade George Washington, em Washington DC.

Como consequência, as bactérias têm desenvolvido resistência à colistina lentamente, em comparação com outros antibióticos. As mutações que conferem resistência à colistina já haviam sido previamente relatadas. Muitas bactérias do solo também são conhecidas por serem resistentes, porque a droga é amplamente utilizada na agricultura para engordar porcos e prevenir a doença em animais de fazenda. A China, em particular, utiliza 12.000 toneladas por ano de colistina na agricultura.

Mas as descobertas mais recentes mostram que os genes que conferem resistência a colistina foram identificados em laços de DNA chamados plasmídeos, que as bactérias partilham umas com as outras. Os pesquisadores chineses encontraram um gene, que eles chamaram de mcr-1, em amostras de Escherichia coli recolhidas de várias províncias chinesas, sugerindo que ele se espalha facilmente; o mesmo gene tem sido encontrado em toda a Ásia e Europa. Os pesquisadores dinamarqueses mostraram que a E. coli pode transferir a sua resistência a bactérias não relacionadas.

Não é o último recurso

A colistina não é a única droga que tem sido chamada de um antibiótico de “último recurso”. Este termo é usado frequentemente para se referir a carbapanemas, que têm sido usadas principalmente para tratar apenas infecções causadas por bactérias resistentes a múltiplas drogas. Mas plasmídeos de resistência  a carbapanemas foram se espalhando entre as bactérias a um ritmo alarmante nos últimos anos.

Ainda assim, existem outros antibióticos para que a ampla resistência não aconteça. Os médicos poderiam tratar pacientes com classes de antibióticos raramente utilizados, tais como tigeciclina, diz Jones, ou com combinações de drogas (como a colistina, a tigeciclina é tóxica para os pacientes).

A descoberta em 7 de janeiro de 2015, de um novo composto antibacteriano, teixobactina, foi recebido com grande entusiasmo. Ele é produzido por bactérias do solo e tem um mecanismo de morte diferente de outros antibióticos. Mas será que anos antes de o composto ser desenvolvido em uma droga e se mostrar seguro em humanos, ele não vai ser útil contra bactérias intestinais, tais como E. coli, porque mata microrganismos que possuem um tipo diferente de parede celular.

Uso excessivo de combate

Para incentivar as empresas a desenvolver novos antibióticos, alguns governos criaram incentivos, tais como incentivos fiscais e avaliação mais rápida pelos órgãos reguladores. Os pesquisadores estão começando a explorar alternativas para as drogas, como o aproveitamento de vírus que atacam as bactérias, e usando peptídeos antibacterianos encontrados no sangue de animais rústicos, como os jacarés.

Mas bactérias, inevitavelmente, também se tornam resistentes a novas classes de antibióticos. “A criação de novos antibióticos é muito excitante e atraente, mas é uma perda proposicional se nós não descobrirmos como usar melhor os medicamentos existentes”, diz James Johnson, um médico de doenças infecciosas da Universidade de Minnesota, nos EUA.

Isso exige reprimir o uso excessivo de antibióticos em animais de fazenda e em hospitais. E um estudo de 2013 descobriu que cerca de metade das prescrições de antibióticos nos Estados Unidos pode ser desnecessária.

Os governos estão tomando algumas medidas: a União Europeia proibiu o uso de antibióticos para ajudar a engordar o gado, há uma década, e muitos outros países de alta renda, incluindo os Estados Unidos, estão instituindo regulamentos sobre o uso de antibióticos. Em última análise, no entanto – como mostra a disseminação de mcr-1 – a cooperação internacional para estabelecer uma vigilância global e regulamentos será necessária para evitar o uso excessivo de antibióticos.

Fonte: Nature.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
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