Sinais de alergias alimentares podem estar presentes ao nascimento

Alguns bebês nascem com células do sistema imunológico preparadas para causar alergias alimentares, sugere um novo estudo.

O sangue do cordão umbilical de recém-nascidos australianos que desenvolveram alergias alimentares continha versões hiperativas de células imunológicas, chamadas monócitos, como relataram os pesquisadores no dia 13 de janeiro, na Science Translational Medicine. Essas células superexcitadas podem impulsionar outras células do sistema imunológico a se tornarem células que causam alergia, como descoberto pela pesquisadora de imunologia Zhang Yuxia, do Walter and Eliza Hall Institute of Medical Research, na Austrália, e seus colegas. As descobertas podem ajudar os pesquisadores a entenderem melhor como se desenvolvem alergias alimentares e traçar estratégias para evitar estas reações imunológicas potencialmente fatais.

Messy baby eating
Alergias a produtos lácteos, ovos, nozes e outros alimentos estão aumentando, mas o aumento não foi explicado. Uma nova pesquisa sugere que o sistema imunológico dos bebês pode ser crucial para o desenvolvimento de alergias mesmo antes do nascimento. Fonte: Science News.

Cerca de 15 milhões de pessoas nos Estados Unidos – incluindo uma estimativa de 4 a 6% das crianças – tem alergia a alimentos como leite, ovos, amendoim e marisco. Na Austrália, a taxa é ainda maior: cerca de 10% das crianças tinham alergias alimentares, de acordo com um estudo recente em Melbourne. As alergias alimentares estão em ascensão e ninguém sabe porquê, diz Anne Marie Singh, uma pediatra alergista e imunologista da Feinberg School of Medicine da Northwestern University, em Chicago. Pesquisas como a de Zhang e seus colegas podem ajudar a descobrir o mecanismo por trás desse aumento, diz ela.

Os novos resultados vêm de um estudo em curso chamado Barwon Infant Study, que está coletando dados em mais de 1.000 bebês nascidos entre 2010 e 2013 na região de Barwon, no sudoeste da Austrália. As conclusões de alergia alimentar vêm da análises de dados de 697 bebês que tiveram o sangue ainda fresco retirado dos seus cordões umbilicais, imediatamente após o nascimento e que tinham sido testados para alergias alimentares com 1 ano de idade.

As crianças que desenvolveram alergias alimentares tendem a terem monócitos em seu sangue do cordão umbilical que reagiram mais fortemente para componentes de parede celular de bactérias comparado com os monócitos de crianças que não tiveram alergias alimentares. Como rapidamente estes glóbulos brancos atacam os componentes da parede celular, é uma medida da atividade do sistema imunológico. Normalmente, uma resposta forte é boa: isso significa que as células do sistema imunológico estão prontas para lutar contra bactérias e vírus. Mas, para as crianças alérgicas à comida, os monócitos brigões podem ser um sinal de alerta precoce de que o sistema imunológico dessas crianças poderia continuar a atacar proteínas alimentares inofensivas.

Monócitos hiperativos produzem mais citocinas que os monócitos normais, de acordo com as descobertas dos pesquisadores. Uma citocina chamada IL2, produzida pelas células T, pode impedir as células de se tornarem indutores de alergias, dizem os pesquisadores.

A maioria das crianças que tiveram as células hiperexcitadas ​​não passaram a ter reações alérgicas a alimentos, no entanto. “Eu não acho que você pode olhar para os nossos dados e prever que um grupo de crianças vai continuar a desenvolver alergias alimentares”, diz o co-autor do estudo Peter Vuillermin, pediatra da Universidade de Deakin, em Geelong, Austrália, que ajuda a levar o Barwon Infant Study.

James R. Baker Jr. chama os novos dados de “intrigantes”, mas diz que “vão contra algum dogma.” Normalmente, uma forte reação inflamatória em bebês está associada a uma resposta imune saudável para infecções e vacinas, mas não com alergias, diz Baker, um alergista e imunologista da Universidade de Michigan e diretor executivo da organização sem fins lucrativos Food Allergy Research and Education. Estes resultados não indicam como o sistema imunológico fica preparado, nem demonstram exatamente como ou por que a mudança para alergias acontece em algumas crianças, mas não em outras.

Anne Marie Singh diz que não achou os resultados contraditórios. Uma boa evidência sugere que os processos que ocorrem durante a gravidez podem influenciar o desenvolvimento de doenças alérgicas em crianças, de acordo com ela. O estudo escolhe “uma pequena peça em um enorme quebra-cabeças”. Este mesmo processo também pode acontecer com outros tipos de doenças alérgicas tais como o eczema e a asma, diz ela.

Uma nota do editor incluída no estudo sugere que “estratégias anti-inflamatórios devem ser consideradas na prevenção da alergia alimentar”. Baker não vê qualquer justificação para dar a bebês drogas anti-inflamatórias. “Isto parece totalmente louco”, diz ele.

Vuillermin concorda que os bebês não devem receber medicamentos anti-inflamatórios, mas sua pesquisa sugere algumas outras ações iniciais que podem diminuir alergias alimentares. Alguns estudos anteriores indicaram que os microrganismos amigáveis ​​podem ajudar a proteger contra alergias alimentares. Vuillermin acha que a manipulação dos tipos de bactérias que as mães carregam na gravidez podem alterar a produção de citocinas inflamatórias do sistema imunológico dos bebês, levando-os a não desenvolverem alergias.

Reportagem traduzida originalmente de Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

%d blogueiros gostam disto: