A dor produz ganho de memória

A dor pode selar memórias no cérebro, segundo um novo estudo. Um ano depois de ver a foto de um objeto neutro aleatório, as pessoas puderam lembrar melhor da imagem se, no momento em que a viram pela primeira vez, estivessem sentindo um doloroso calor no braço.

“Os resultados são divertidos, interessantes e provocantes”, diz o neurocientista A. Vania Apkarian, da Northwestern University, em Chicago. Os achados “corroboram com a ideia de que a dor realmente envolve a memória”.

Os neurocientistas G. Elliott Wimmer e Christian Büchel, do University Medical Center Hamburg-Eppendorf, na Alemanha, relataram os resultados em um documento on-line na BioRxiv.org. As descobertas estão sob avaliação em uma revista científica, e Wimmer se recusou a comentar o estudo até que ele seja aceito para publicação.

Wimmer e Büchel recrutaram 31 almas corajosas que concordaram em sentir dor através de uma emissão de calor em seus antebraços esquerdos. A sensibilidade à dor de cada pessoa foi usada para calibrar a quantidade de calor que receberia na experiência, que era ou não dolorosa (uma nota 2 numa escala de 8 pontos) ou o máximo que uma pessoa poderia suportar várias vezes (um total de 8 pontos). Submetidos a um exame de ressonância magnética funcional, os participantes olharam para uma série de imagens de objetos domésticos simples, como uma câmera, às vezes sentindo dor e às vezes não.

Logo depois de ver as imagens, as pessoas receberam um questionário no qual elas responderam se um objeto era familiar. A dor não influenciou na memória imediatamente. Logo depois de seu calvário, os participantes lembraram de cerca de três quartos dos objetos vistos anteriormente, independentemente se a dor estava presente, descobriram os pesquisadores.

Os resultados sugerem que a dor “de alguma forma amplifica os selos nas memórias para que elas sejam armazenados de forma mais robusta”, diz o neurocientista Ben Seymour, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Ao mostrar que a dor pode preservar memórias por pelo menos um ano, o estudo destaca o poder da dor para esculpir o comportamento, de acordo com ele. O experimento provavelmente não captura toda a extensão de muitas experiências dolorosas.

Com base em exames cerebrais de ressonância magnética funcional, impulsionar a memória de dor pareceu estar ligada à atividade em uma parte da ínsula, uma área do cérebro envolvida com as sensações corporais e emoções. Outros estudos descobriram que as memórias emocionalmente carregadas parecem ser particularmente duráveis.

Apkarian adverte que outras partes do cérebro, particularmente aquelas no lobo temporal medial, que têm funções conhecidas na memória, podem estar envolvidas.

Descobrir que a dor pode fornecer um choque na memória coincide com vários dados em animais, ressalta Apkarian. Os cientistas sabem que uma das formas mais rápidas de fazer um camundongo aprender algo é através do choque. Mas “o componente humano do que é mal está em falta”, diz ele. “Eu gostaria de considerar isto um primeiro passo”, diz ele.

Matéria traduzida originalmente da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
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