Bactéria causadora de úlcera é encontrada em múmia congelada de 5.300 anos

Com 5.300 anos, múmia possui provas de DNA de Helicobacter pylori, uma bactéria que vive comumente no estômago, mas que pode causar úlceras e outras doenças, de acordo com pesquisadores no dia 08 de janeiro, na Science.

O novo trabalho pode reescrever a linha do tempo da evolução da H.pylori e, possivelmente, até mesmo oferecer alguns ideias sobre a migração humana – embora nem todos estejam convencidos disso.

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Tecido do estômago de uma múmia de 5.300 anos de idade, conhecida como Ötzi, o “homem de gelo”, que revelou a presença de uma cepa virulenta da bactéria H. pylori. Aqui, os cientistas retiram uma amostra do corpo da múmia. Fonte: Science News. © EURAC, MARION LAFOGLER

 

Independentemente disto, é a primeira vez que alguém encaixa as peças do DNA da H. pylori, diz Daniel Falush, geneticista estatístico da Universidade de Swansea, no País de Gales, que não esteve envolvido no estudo. “É uma avanço técnico”, diz ele. Dada a idade do material de partida, “estou surpreso que foi possível”.

Em 1991, os cientistas descobriram o “Homem de Gelo” apresentado num bloco de gelo em uma geleira entre a Áustria e a Itália. Ao longo das últimas décadas, exames físicos, escaneamento do corpo e análises dos dentes e ossos de Ötzi (nome dado ao “homem de gelo”) revelaram muito sobre a sua vida e morte, incluindo que ele morreu por meio de um ferimento de flecha no ombro. Nos últimos anos, os cientistas revelaram alguns dos segredos mais íntimos de Ötzi. Em 2012, Albert Zink, da Academia Europeia de Bozen/Bolzano na Itália e seus colegas, relataram que o “homem de gelo” era intolerante à lactose, tinha cabelos e olhos castanhos e estava infectado com a bactéria que causa a doença de Lyme.

Mapeando a bactéria

As amostras colhidas no estômago e intestino do Ötzi continham o DNA de H. pylori, enquanto em seus músculos não continha nenhum traço das bactérias. Na imagem a seguir, a concentração é representada por um gradiente de cores, começando com vermelho (nenhuma) e aumentando até verde.

 

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© SÜDTIROLER ARCHÄOLOGIEMUSEUM, EURAC, MARCO SAMADELLI, GREGOR STASCHITZ, CENTRAL HOSPITAL BOLZANO

A equipe de Zink também notou que Ötzi tinha uma barriga bem preservada. “Aí surgiu a ideia: vamos dar uma olhada e ver se ele está carregando o H. pylori“, diz Zink. A equipe, descongelado a múmia, cortou amostras de seu estômago e olhou os sinais microscópicos de infecção. Mas a parede interna do estômago – onde as bactérias normalmente habitam – já estava desintegrada. Então, os pesquisadores procuraram pelo DNA do H. pylori.

Eles descobriram que, misturado com o DNA de outros microrganismos do intestino, bem como o DNA do próprio “homem de gelo”. A equipe de Zink tirou uma porção de H. pylori, reuniram os pedaços e montaram uma cópia quase completa da cepas antigas descritas no livro de instruções genéticas. Os pesquisadores então compararam este genoma bacteriano antigo com os de cepas de H. pylori modernas.

Zink e seus colegas ficaram surpresos ao descobrir que o “homem de gelo” europeu não tem uma cepa de aspecto europeu. Em vez disso, as bactérias da múmia pareciam mais com uma cepa asiática.

Acredita-se que a cepa europeia atual é uma mistura de cepas asiáticas e africanas antigas (chamadas AE1 e AE2). Estas duas cepas misturaram-se quando os seres humanos portadores da cepa asiática tiveram contato com os seres humanos que transportavam a cepa Africana. Os cientistas haviam atrelado a data desta mistura para algum momento entre 10.000 e 52.000 anos atrás.

Mas o novo trabalho sugere que a cepa Africana não chegou na Europa muito mais tarde – após o tempo do “homem de gelo”, cerca de 5.000 anos atrás.

“Grande coisa”, diz o microbiologista Mark Achtman, da Universidade de Warwick, na Inglaterra. “Eles têm uma pessoa de 5.000 anos de idade, carregando as bactérias”. Para esboçar uma história da migração humana, a equipe precisa examinar muito mais pessoas, diz ele.

Os autores do estudo concordam que estudar mais múmias ajudaria. “Nós sempre temos que ter em mente que estamos falando de um exemplo”, diz Zink.

Mas mesmo um exemplo pode oferecer novas ideias sobre a vida dos seres humanos antigos – além dos eventos de migração. A cepa de H. pylori  presente em Ötzi era virulenta, como descobriu a equipe de Zink. Dentro dos tecidos do estômago do “homem de gelo” os pesquisadores descobriram sinais de inflamação.

Diz D. Scott Merrell, um microbiologista da Uniformed Services University of the Health Sciences, em Bethesda: “Isso sugere para mim, que, mesmo há 5.000 anos atrás, as pessoas já estavam sofrendo com doenças associadas à H. pylori. “

Texto traduzida originalmente da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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