Cientistas começaram a cultivar tubas uterinas humanas em laboratório

Pesquisadores na Alemanha têm cultivado com sucesso a camada mais interna das tubas uterinas humanas em laboratório – o primeiro passo para a criação de um modelo funcional que permitirá aos cientistas estudar doenças reprodutivas e o início do câncer, bem como fornecer informações importantes sobre este enigmático órgão.

As tubas uterinas desempenham um papel crucial no sistema reprodutor feminino, ligando os ovários ao útero, mas pesquisas recentes sugerem que se as células das tubas uterinas fossem infectadas, elas poderiam migrar e se tornar um fator chave para o câncer do ovário – um dos tipos mais mortais de câncer no sistema reprodutivo feminino.

Apesar da importância desses órgãos, temos muito a aprender sobre como eles funcionam, especialmente no interior – uma área que (como você pode imaginar) é particularmente desafiadora para que os cientistas as estudem enquanto os seus pacientes estão vivos.

E foi por isso que os cientistas do Max Planck Institute for Infection Biology queriam crescer o epitélio da membrana da mucosa que forma o interior das tubas uterinas em réplicas cultivadas em laboratório.

Mas tentar cultivar órgãos humanos em laboratório é notoriamente difícil. Primeiro de tudo, você precisa isolar e estimular as células-tronco adultas do órgão específico, que são células que são capazes de se diferenciar em todos os tipos de células essenciais necessárias para regenerar e manter o órgão. Neste caso, os pesquisadores utilizaram células epiteliais uterinas que tinham propriedades semelhantes às das células retiradas do tecido de doadores.

Como se isso não parecesse difícil o bastante, os pesquisadores também tiveram que tentar replicar as condições ambientais do corpo humano a fim de obter células-tronco que pudessem crescer e desenvolver-se em estruturas mais complexas.

Após a criação de condições ambientais especiais para as células, os pesquisadores observaram que algumas das células se organizaram em organóides – esferas ocas, formadas por milhares de células e que tinham a característica estrutural e a forma de uma tuba uterina natural. O que é muito legal!

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Epitélio da tuba uterina cultivado numa placa de Petri com a ajuda de células estaminais. © MPI f. Infection Biology.

 

“Isso aconteceu sem qualquer instrução adicional que seja” disse um dos pesquisadores, Mirjana Kessler. “Todo o modelo da tuba uterina tem de ser armazenado, por conseguinte, nas células epiteliais.”

Testes mostraram que a estrutura, a anatomia e os processos bioquímicos desses organóides são muito semelhantes aos das tubas uterinas reais – eles ainda responderam quando os pesquisadores adicionaram hormônios em seu ambiente.

A equipe tem mantido as mini-tubas uterinas vivas no laboratório por mais de um ano – algo que anteriormente poderia ser feito apenas por alguns dias. E eles já descobriram duas vias de sinalização – conhecidas como Notch e Wnt – que mantêm as células-tronco das tubas uterinas regenerando o órgão.

Isso nos ajudaria a entender como a tuba uterina cresce e se desenvolve,  e o mais importante é o que este modelo poderia nos ensinar no futuro sobre a saúde reprodutiva e o câncer em mulheres. “Com a ajuda do nosso modelo, agora podemos nos concentrar em determinar se o câncer pode ser desencadeado por infecções das tubas uterinas humanas”, disse o pesquisador Thomas F. Meyer .

Embora não seja o objetivo deste grupo de pesquisa, também é importante ter em mente que outros órgãos cultivados em laboratório, como rins e pênis , estão sendo testados atualmente para o uso potencial em transplantes humanos. Quem sabe, talvez um dia nós poderemos ver as tubas uterinas sendo cultivadas em laboratório e transplantadas para as mulheres que nascerem sem elas, ou que então que as perderam devido a uma doença ou lesão. A pesquisa foi publicada na Nature Communications.

Matéria traduzida originalmente de Science Alert, por Vinicius de Oliveira Mussi.

Revisado por Igor Augusto G. Cunha.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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