O que acontece quando se mistura remédios?

É muito comum que uma pessoa precise tomar mais de um remédio ao mesmo tempo. Mas será que eles interagem de algum forma e causam algum efeito colateral diferente?

Pesquisadores, indústrias farmacêuticas e órgãos de regulamentação fazem diversos testes antes das vendas de um novo medicamento serem iniciadas. Eles avaliam a sua eficiência, investigam como eles atuam no organismo e quais efeitos colaterais eles causam. Se tudo estiver dentro da legislação, eles são aprovados, fabricados e vendidos.

Entretanto os efeitos colaterais resultantes da interação entre mais de um medicamento não são analisados. E as combinações são inúmeras! Existem pessoas que tomam apenas dois medicamentos regularmente, mas outras tomam quase dez! Eles podem estar (e provavelmente estão) causando efeitos inesperados.

O professor e pesquisador Russ Altman, da Universidade de Stanford, nos EUA, iniciou há algum tempo uma pesquisa sobre as interações medicamentosas inesperadas que podem acontecer, e para isto utilizou o banco de dados da FDA (Food and Drugs Administration, um órgão dos EUA responsável pelo controle e regulamentação de medicamentos, cosméticos, alimentos, e outros produtos, de forma equivalente à nossa ANVISA), históricos de três instituições médicas e históricos de pesquisa na internet.

Russ Altman - TED
Russ Altman, pesquisador responsável pela equipe que desenvolveu esta análise. Fonte da imagem: TED.

No trabalho de sua equipe, Altman cruzou todos estes dados e concluiu que é possível avaliar a interação entre os medicamentos através dos relatos dos próprios pacientes. E os “relatos” mais significativos foram os que eles obtiveram através das pesquisas que as pessoas realizavam em sites de busca (buscando por sintomas, como “inchaço nas mãos ao usar Paxil”). É evidente que descobrir os efeitos colaterais depois que os pacientes já manifestam os tais efeitos não é a melhor opção, mas é um caminho, visto a dificuldade de se fazer esta análise previamente em laboratório.

Utilizando um programa criado por sua equipe, Altman descobriu que o uso em conjunto do antidepressivo paroxetina (ou Paxil) e do remédio para colesterol Pravachol, aumentava cerca de 20 mg/dL a taxa de glicose dos pacientes. Isto significa que um paciente com glicemia normal, em torno de 90 mg/dL, teria um aumento para 110 mg/dL, o que indicaria o início de uma diabetes. Imagine este efeito em pacientes com taxas já aumentadas? Certamente poderiam desenvolver um quadro de diabetes.

Este programa poderia ser utilizado como uma “intervenção de emergência” para investigar as interações medicamentosas que acontecem entre os fármacos sem termos que voltar à bancada e realizar muitos experimentos. A partir dos dados preliminares obtidos pelo programa da equipe de Altman, poderíamos ganhar muito mais tempo nesta investigação.

O Dr. Altman fez uma apresentação no TED, apresentando os resultados desta pesquisa. Então se você quiser saber mais detalhes sobre isto, assista a apresentação abaixo e ouça do próprio pesquisador os motivos desta análise ser tão relevante e como ela foi feita:

Fonte: TED.

Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo - UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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Igor Cunha

Biomédico, formado pela Faculdade do Espírito Santo – UNES, Mestre em Biociências e Biotecnologia na UENF – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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