Antitranspirante muda significativamente o ecossistema microbiano da sua pele

Passar o antitranspirante ou desodorante pode ser uma boa maneira de ajudar a administrar o seu odor corporal. Isto é uma coisa boa ou ruim para a saúde da nossa pele? Neste momento, os cientistas não têm nenhuma idéia.

Pesquisadores nos EUA descobriram que a utilização destes produtos de higiene pessoal em sua pele afeta significativamente o tipo e quantidade de vida bacteriana no microbioma da axila. Enquanto não há nenhuma evidência de que isto é necessariamente prejudicial para a saúde humana, os pesquisadores dizem que é possível que estes micróbios naturais sirvam a um propósito benéfico e, se o fizerem, isso poderia significar que não estamos fazendo nenhum favor a nós mesmos alterando-os.

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Bactérias cultivadas a partir de uma das amostras em estudo. Crédito da foto: North Carolina Central University.

“Milhares de espécies de bactérias têm potencial para viver na pele humana, e em particular na axila”, disse o ecologista Rob Dunn da North Carolina State University. De acordo com ele, não se sabe exatamente o que determina qual espécie de bactéria vive na sua axila, mas eles descobriram que um dos maiores determinantes é o uso de desodorante e/ou antitranspirante.”

Para avaliar o impacto microbiano ao usar desodorante e antitranspirante, os pesquisadores estudaram 17 participantes ao longo de oito dias.

O grupo era composto por três sub-grupos: sete pessoas que rotineiramente utilizavam antitranspirante, o que reduz a quantidade de suor; cinco participantes que rotineiramente utilizavam desodorizante, que muitas vezes inclui etanol ou outros antimicrobianos para matar os micróbios causadores de odor; e cinco pessoas que não usavam nenhum dos dois. Os participantes tiveram o exsudado coletado de suas axilas duas vezes por dia durante o experimento.

No início do estudo, os participantes seguiram a sua habitual rotina de higiene pessoal, mas entre o segundo e o sexto dia não foram utilizados nenhum desodorante ou antitranspirante. Nos dois últimos dias, todos os participantes usaram antitranspirante.

“Descobrimos que, no primeiro dia, as pessoas que utilizavam antitranspirante tinham menos micróbios em suas amostras do que as pessoas que não utilizavam nenhum produto – mas houve uma grande variabilidade, o que torna difícil extrair conclusões firmes”, disse uma das os pesquisadoras, Julie Horvath, do North Carolina Central University. “Além disso, as pessoas que usaram o desodorante, na verdade, muitas vezes tinham mais micróbios – em média – do que aquelas que não usavam o produto.”

Ao sexto dia, quando todos os participantes não tinham usado os produtos por cinco dias, a quantidade de bactérias em suas axilas eram bastante semelhantes, mas quando todo o grupo começou a usar o antitranspirante nos dois últimos dias, os pesquisadores descobriram que houve uma redução drástica no crescimento microbiano.

Isto sugere que enquanto o uso de antitranspirante parece diminuir as populações microbianas, o uso de desodorante realmente aumenta-os.

Usando o sequenciamento genético para analisar a composição e a variedade de bactérias no suor dos participantes quando nenhum produto foi utilizado, os pesquisadores descobriram que o antitranspirante em particular produz diferentes populações microbianas nas axilas das pessoas.

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Gráfico detalhando as diferenças na diversidade microbiana entre os participantes do estudo. Fonte: NC STATE NEWS.

Enquanto que aqueles que normalmente não usavam desodorante ou antitranspirante exibiram altos níveis de Corynebacteria (62% dos microrganismos encontrados) e baixos níveis de Staphylococcaceae (21%), isto foi quase revertido em usuários de antitranspirantes (com 14% e 60% respectivamente).

A Corynebacteria, apesar de, em parte, ser responsável pelo odor corporal, pode nos ajudar na defensa contra patógenos (é o que acredita-se). Os Staphylococcaceae são um grupo de bactérias cuja maioria é considerada benéfica, embora algumas possam representar um risco para a saúde humana em algumas circunstâncias.

Mas o fato de que os produtos que utilizamos podem alterar dramaticamente a composição destas bactérias em nosso microbioma da axila poderia ter consequências significativas, como relatam os pesquisadores na PeerJ .

“Usando antitranspirante e desodorante reorganiza-se completamente o ecossistema microbiano de sua pele – o que está vivendo em nós e em quais quantidades”, disse Horvath . “E nós não temos nenhuma ideia do efeito que eles tem na nossa pele e em nossa saúde. É benéfico? É prejudicial? Nós realmente não sabemos neste momento.”

Uma pesquisa anterior, realizada por alguns dos mesmos cientistas, recentemente comparou micróbios da axila entre humanos e primatas não-humanos, e descobriu que os micróbios têm evoluído ao longo do tempo, em conjunto com as espécies com que vivem.

“Uma descoberta interessante foi que os primatas não-humanos estavam mais cobertos de micróbios associados às fezes e ao solo, o que muitas vezes vemos como algo sujo”, disse Horvath . “Talvez a diversidade de micróbios fecais e do solo na pele de primatas não humanos tragam algum benefício que ainda não compreendemos ou apreciamos.”

 

Texto traduzido da revista Sciente Alert por Vinicius de Oliveira Mussi.

Revisado por Igor Augusto G. Cunha.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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