O mundo pode em breve ficar sem medicamentos para tratar a gonorreia

Este é mais um sinal de que uma era de infecções bacterianas incuráveis está se aproximando. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou novas diretrizes para o tratamento da gonorreia que refletem a dura realidade de que esta doença sexualmente transmissível está se tornando cada vez mais difícil de tratar. A OMS não recomenda o uso de quinolonas, uma classe de antibióticos que tem se tornado cada vez menos eficaz, e, pela primeira vez, a agência faz sugestões sobre o que fazer quando nenhuma das drogas padrão funcionarem.

A gonorreia, causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae, infecta um número estimado de 78 milhões de pessoas a cada ano. Embora muitos não sofram nenhum sintoma, a bactéria pode causar dor nos órgãos genitais, reto e na garganta, podendo levar à infertilidade e infecções no cérebro ou no coração, se não tratada. Orientações da OMS, escritas em 2003, recomendam o tratamento de infecções com quinolonas, como a ciprofloxacina. Mas cepas resistentes da bactéria já se espalharam por todo o mundo, tornando todas as quinolonas mais inúteis, diz Teodora Wi, do Departamento de Saúde Reprodutiva e Pesquisa da OMS em Genebra, Suíça. Outra classe de medicamentos chamados cefalosporinas deve ser a primeira linha de defesa.

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Detalhe da estrutura da Neisseria gonorrhoeae. (Créditos na imagem)

Muitos países de alta renda mudaram suas diretrizes anos atrás com base em seus próprios dados. Mas as orientações da OMS estabeleceram um padrão global e são particularmente importantes para os países de baixa renda que não têm bons dados de vigilância. “Nós realmente queríamos que os países removessem as quinolonas como o principal tratamento”, diz Wi. “Imagine se os países africanos investissem muito dinheiro na compra de quinolonas, sendo que as bactérias já são resistentes.”

As cefalosporinas (incluindo uma droga amplamente utilizada chamada ceftriaxona) também tem seus problemas. Quarenta e seis países relataram cepas de gonorreia com sensibilidade diminuída à ceftriaxona, e 10 relataram pacientes para os quais nenhum dos antibióticos usuais eram eficazes, diz Wi. “Corremos o risco de perder a última classe de antibióticos para o tratamento eficaz da gonorreia”, diz Vanessa Allen, chefe de microbiologia médica na Public Health Ontario em Toronto, Canadá.

Mesmo quando as cefalosporinas falharem, os médicos terão algumas opções. As novas diretrizes sugerem combinações de drogas, incluindo antibióticos mais antigos como gentamicina e espectinomicina. Mas esses foram menos estudados, e a N. gonorrhoeae é conhecida por desenvolver resistência contra eles muito rapidamente. Já estão em desenvolvimento novos medicamentos contra a gonorreia, de acordo com Wi. “Teremos que ter novas drogas em 5 anos, eu acho.”

As poucas alternativas aos antibióticos são muito pouco atraentes. Antes da penicilina se tornar disponível em meados do século 20, os pacientes com gonorreia, muitas vezes tinham que suportar tratamentos dolorosos no hospital. “Um retorno a esta era pré-antibiótica está se tornando uma possibilidade cada vez maior, a menos que diminua a taxa de resistência ou desenvolvam-se novos medicamentos em breve.” Mudanças nas diretrizes do tratamento no Reino Unido e no Canadá levaram a uma diminuição da resistência, diz Allen. “Mas teremos de ver o que isso vai fazer em uma escala internacional”.

A OMS também revisou as diretrizes para o tratamento da clamídia e da sífilis, duas outras infecções sexualmente transmissíveis importantes para as quais a resistência é um problema menor. Uma única dose de penicilina benzatina, por exemplo, ainda é considerada a melhor opção para curar a sífilis. Mas há uma escassez dessa droga, Wi diz: “É tão barata que muitas empresas não querem fabricá-la”. De acordo com ela, a OMS está trabalhando nesta questão. A sífilis é particularmente perigosa em mulheres grávidas, que podem transmitir a doença para o feto, levando a um número estimado de 143.000 abortos e 62.000 mortes entre os recém-nascidos a cada ano.

Matéria originalmente traduzida de Science Mag, por Vinicius de Oliveira Mussi.

Revisado por Igor Augusto G. Cunha.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e atualmente mestrando em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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