Validar os seus anticorpos para melhorar a reprodutibilidade? Mais fácil falar do que fazer

É o mais elementar dos princípios da pesquisa: certifique-se que as células e reagentes do seu experimento são o que dizem ser e que se comportam conforme o esperado. Mas quando se trata de anticorpos – proteínas imunitárias utilizadas em todos os tipos de experimentos para identificar uma molécula de interesse, em uma amostra – esse processo de validação não é simples.

Os anticorpos de pesquisa fornecidos comercialmente são muitas vezes selecionados e otimizados para condições experimentais restritas, o que significa que eles podem não funcionar como anunciado por muitos cientistas. Na verdade, os problemas com anticorpos podem ter levado muitos desenvolvedores de drogas ao erro, e gerado uma série de resultados científicos enganosos ou irreprodutíveis .

Recentemente, mais de 100 pesquisadores, fabricantes de anticorpos, editores de revistas e financiadores reuniram-se em Pacific Grove, na Califórnia – EUA, para elaborar abordagens padronizadas para testes de anticorpos. “A autenticação celular é ‘um passeio no parque’, quando comparado com o que nós precisamos fazer com os anticorpos”, diz Leonard Freedman, presidente do Global Biological Standards Institute (GBSI), dos EUA – uma ONG que defende melhores práticas de pesquisa básica e que patrocinou a reunião. Nos próximos meses, os participantes esperam chegar a um sistema de pontuação que irá identificar os anticorpos mais confiáveis para um determinado tipo de experimento e, finalmente (eles esperam), tornar os resultados mais reprodutíveis através dos experimentos.

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Produzidos por células do sistema imunológico, os anticorpos são utilizados em laboratórios para marcar proteínas específicas, mas a especificidade e outros atributos de muitos anticorpos foram mal avaliados. Créditos: Markusblanke/iStockphoto.

Os anticorpos são normalmente feitos em animais, tais como coelhos ou cabras, através da injeção de uma proteína de interesse que faz com que linfócitos B do animal respondam à molécula estranha com essas proteínas em forma de Y, que podem ser isoladas a partir do sangue desses animais. Porém os lotes do mesmo anticorpo feitos por animais diferentes podem reagir de forma cruzada com proteínas diferentes, e é difícil rastrear um determinado lote até a sua origem, porque os anticorpos são muitas vezes remarcados e revendidos por um outro fornecedor com um novo nome, diz Freedman.

Validar os cerca de 2,5 milhões de anticorpos comercialmente disponíveis que reagem às proteínas humanas é uma tarefa gigantesca, reconheceu em uma coletiva de imprensa o microbiologista Mathias Uhlen, do Instituto Real de Tecnologia em Estocolmo e membro do comitê desse encontro. Ele espera que os forncedores de anticorpos façam o teste e divulguem as suas pontuações para tornar seus produtos mais competitivos. Revistas e agências de financiamento, por sua vez, precisam favorecer a pesquisa que utiliza anticorpos bem validados, disse ele.

A reunião no mês de outubro é um dos vários esforços para atacar o que alguns consideram uma crise de reprodutibilidade no que se refere à anticorpos. Em uma pesquisa online com 504 pesquisadores, publicada pela GBSI neste verão, mais da metade dos entrevistados disseram que não tinham recebido nenhum treinamento sobre como validar anticorpos. Especialistas internacionais na validação de anticorpos publicaram um comentário no início do mês de Setembro de 2016 na Nature Methods, defendendo testes de anticorpos de aplicação específica. Os grupos de trabalho que participaram da reunião pretendem publicar documentos técnicos sobre o seu sistema de pontuação em revistas nos próximos meses.

Texto originalmente traduzido da Sciencepor Vinicius de Oliveira Mussi.

Revisado por Igor Augusto G. Cunha.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
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