A doença da vaca louca ainda é uma ameaça, mas podemos finalmente ter um exame de sangue para ela

A “vaca louca”, ou a encefalopatia espongiforme bovina (EEB ou BSE, da sigla em inglês), é uma das condições mais assustadoras e estranhas dos últimos 20 anos.

Essa doença degenerativa é difundida através da carne de vaca infectada e por transfusões de sangue, provocando a deterioração rápida do cérebro. Ela é sempre fatal e não têm cura. Mas o mais terrível de tudo é que os médicos nunca foram capazes de testá-la, e ainda não tem certeza de quantas pessoas poderiam ter sido infectadas, razão pela qual muitas pessoas que viveram no Reino Unido durante os anos 80 e 90 ainda não podem doar sangue.

Mas isso pode estar prestes a mudar, pois duas equipes de cientistas estão desenvolvendo um exame de sangue que pode detectar a variante humana da doença, a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), com 100% de precisão e anos antes de surgirem os sintomas.

Ambas as análises de sangue têm sido testadas apenas em pequenos grupos de amostras até agora, por isso é muito cedo para dizer com certeza que ela funcionará corretamente para a população em geral.

Ambos os resultados foram publicados na revista científica Science Translational Medicine (aqui e aqui), e eles sinalizam um grande avanço na doença em anos.

Para aqueles jovens o suficiente que não se lembram do grande surto da doença nos anos 90, a condição parecia aparecer do nada, causando a degeneração fatal do cérebro e da medula espinhal.

Os primeiros sintomas são geralmente depressão e alucinações, que são seguidas rapidamente por demência e perda do controle motor. Dentro de um ano de surgimento dos sintomas, a maioria dos pacientes estará morta.

É conhecido que a doença é transmitida através de proteínas deformadas conhecidas como príons. Essas moléculas estranhas começam como proteínas cerebrais inofensivas, mas se transformam de alguma forma em patógenos altamente contagiosos que recrutam outros príons com os quais entram em contato, agrupando-se em aglomerados que danificam o cérebro.

Esses príons anormais infectam as vacas quando o gado come os miúdos de outras vacas, e a mesma coisa acontece nas populações humanas canibais, que também desenvolvem doenças provocadas por príons.

Uma vez que ficou claro que esses príons anormais estavam sendo espalhados através da carne de vacas infectadas, houve uma enorme esterilização da indústria de gado.

No Reino Unido, onde a condição já matou 177 pessoas, mais de 4,4 milhões de vacas foram abatidas durante o programa de erradicação entre 1986 e 1998.

Pior ainda, os príons não podem ser facilmente mortos por calor ou radiação, por isso os cientistas ainda não sabem como pará-los, e não temos nenhuma maneira de saber quantas pessoas lá fora ainda estão infectadas.

Cérebro infectado com príons de uma vítima de DCJ revela áreas esponjosas (em amarelo). Créditos: Simon Fraser/Science Source.

Jonathan Wadsworth, um bioquímico que estuda príons na University College London, que não estava envolvido no estudo, disse para a Science que “estes artigos são definitivamente muito bem-vindos.”

Os novos testes tomam uma abordagem ligeiramente diferente, mas têm a mesma ideia básica – eles imitam a progressão da doença em um ambiente amplificado para que pequenos vestígios de príons anormais no sangue tornem-se facilmente detectáveis.

Em primeiro lugar, eles separam proteínas priônicas e as cultivam ao lado de proteínas normais, e usam ondas sonoras para agitar os príons.

Isso resulta em aglomerados mais frescos de príons anormais que se rompem, convertendo seus vizinhos, de modo que, eventualmente, há uma grande quantidade de príons mutados agrupados.

Estes são então separados e cultivados com proteínas normais, e o processo é repetido algumas vezes até que o número de príons anormais seja facilmente detectável.

O primeiro teste, desenvolvido por Claudio Soto, da Universidade do Texas, testou a abordagem no sangue a partir de 14 pacientes com DCJ e 137 controles, alguns dos quais eram saudáveis e outros tinham outras doenças neurodegenerativas. O teste foi 100% preciso na identificação da DCJ.

O segundo teste, criado por Daisy Bougard e sua equipe da Universidade de Montpellier, na França, identificou com precisão 18 pacientes com DCJ de um total de 256 amostras. O teste francês também identificou a DCJ em dois pacientes antes mesmo deles apresentarem os sintomas.

Juntos, os dois testes identificaram um total de 32 casos de DCJ a partir de 391 amostras de controle, com 100% de precisão.

Ambos os estudos baseiam-se em pequenas amostras – muito pequenas para dizer se os testes podem ser úteis na triagem da transfusão de sangue em larga escala – mas os pesquisadores agora esperam testar em grupos maiores e continuar a ajustar a técnica.

Na verdade, Soto disse à Scientific American que ele já tem uma parceria com uma startup chamada Amprion para desenvolver a sua tecnologia e está atualmente trabalhando em obter aprovação nos EUA e na Europa para usar o teste na triagem de sangue. Ele prevê que o ensaio esteja comercialmente disponível dentro de um ou dois anos.

Matéria originalmente traduzida da revista Science Alert.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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