Os alimentos e o surgimento de tumores

Pesquisas mostram que 85% dos cânceres é causada por mutações gênicas. Em função da maioria dos cânceres se desenvolverem em pessoas com idade avançada, é razoável presumir que o tempo de vida prolongado seja suficiente para que uma série de eventos ocorra no organismo, dentre eles estão as mutações genéticas. Mutações espontâneas surgem por causa das trocas químicas dos nucleotídios. Além disso, certas substâncias mutagênicas, chamadas carcinógenos, podem causar alterações genéticas que causam o câncer. Dentre eles estão as substâncias químicas presentes no fumo, em conservantes de carnes e embutidos em geral, a luz ultravioleta do Sol, as radiações ionizantes de fontes radioativas, além das bebidas alcoólicas. São também agentes cancerígenos vários tipos de substâncias químicas como herbicidas, pesticidas e fungicidas que, utilizados de forma indiscriminada pelos agricultores no cultivo de verduras, hortaliças e demais produtos destinado ao consumo humano, podem gerar tumores malignos, sendo que mais de 80%  da exposição humana a tais agentes causam o câncer.

Estudos revelam que deficiências nutricionais (como de antioxidantes) e dietas inadequadas funcionam como fontes de radicais livres, os quais seriam responsáveis por alterações no DNA, tornando-o mais vulnerável ao desenvolvimento do câncer. Dieta rica em gorduras, álcool e ferro ou pobre em proteínas, vitaminas A, E, B2, C e alguns minerais (como cálcio e selênio) é considerada como importante fator de risco.

Pacientes com câncer costumam apresentar uma diminuição sérica de vitamina C e a sua administração em doses preconizadas aumenta a defesa imunológica. Células expostas a raios X, raios ultravioletas ou a carcinógenos químicos, quando pré-tratadas com vitamina E, diminuem acentuadamente a suscetibilidade a esses agentes. O selênio (Se) também é um poderoso antioxidante e atua só ou em sinergismo com a vitamina E. Assim, o consumo regular de frutas e vegetais frescos tem sido considerado um fator protetor contra vários tipos de câncer. Além disso, a proteína e a gordura animal, principalmente de carnes vermelhas estão associadas à ocorrência do câncer de cólon, enquanto a gordura saturada relaciona-se com o câncer de próstata.

Segundo dados do INCA, alguns tipos de alimentos consumidos regularmente durante longos períodos de tempo parecem fornecer o tipo de ambiente que uma célula cancerosa necessita para crescer, se multiplicar e se disseminar. Esses alimentos devem ser evitados ou ingeridos com moderação. Neste grupo estão incluídos os alimentos ricos em gorduras, tais como carnes vermelhas, frituras, molhos com maionese, leite integral e derivados, bacon, presuntos, salsichas, linguiças, mortadelas, dentre outros.

Existem também os alimentos que contêm níveis significativos de agentes cancerígenos. Por exemplo, os nitritos e nitratos usados para conservar alguns tipos de alimentos, como picles, salsichas e outros embutidos e alguns tipos de enlatados, se transformam em nitrosaminas no estômago. As nitrosaminas, que têm ação carcinogênica potente, são responsáveis pelos altos índices de câncer de estômago observados em populações que consomem alimentos com estas características de forma abundante e frequente. Já os defumados e churrascos são impregnados pelo alcatrão proveniente da fumaça do carvão, o mesmo encontrado na fumaça do cigarro e que tem ação carcinogênica conhecida. Os alimentos preservados em sal, como carne-de-sol, charque e peixes salgados, também estão relacionados ao desenvolvimento de câncer de estômago em regiões onde é comum o consumo desses alimentos.

Outro fator que interfere diretamente na qualidade do alimento é a forma como ele é preparado. O uso de sal em excesso tem sido associado a um risco aumentado de câncer. A Organização Mundial da Saúde (2014) recomenda o consumo de até 5g de sal ou 2g de sódio por dia, ou seja, o equivalente a uma tampa de caneta cheia. Ao fritar, grelhar ou preparar carnes na brasa a temperaturas muito elevadas, podem ser criados compostos policíclicos aromáticos que aumentam o risco de câncer de estômago e colorretal. Por isso, métodos de cozimento que usam baixas temperaturas são escolhas mais saudáveis, como vapor, fervura, pochê, ensopado, guisado, cozido ou assado.

Há vários estudos epidemiológicos que sugerem a associação de dieta rica em gordura, principalmente a saturada, com um maior risco de se desenvolver câncer de cólon e de reto em regiões desenvolvidas, principalmente em países do Ocidente, onde o consumo de alimentos ricos em gordura é alto. Já os cânceres de estômago e de esôfago ocorrem mais frequentemente em alguns países do Oriente e em regiões pobres onde não há meios adequados de conservação dos alimentos (como geladeira), o que torna comum o uso de picles, defumados e alimentos preservados em sal. Uma atenção especial deve ser dada aos grãos e cereais: se armazenados em locais inadequados e úmidos, esses alimentos podem ser contaminados pelo fungo Aspergillus flavus, o qual produz a aflatoxina, substância cancerígena. Essa toxina está relacionada ao desenvolvimento de câncer de fígado.

Uma vez instalado, o câncer se desenvolve acarretando um alto consumo do organismo, pela competição por nutrientes e energia, resultando em estados de caquexia em fases mais avançadas. A perda de peso e o estado nutricional alterado estão associados ao estado de sobrevida reduzido, tolerância reduzida à terapia e maior morbidade e mortalidade.


Referências

ACS – AMERICAN CANCER SOCIETY. Cancer facts and figures. United States, 2002. 48p.

INCAa – INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Hábitos alimentares e câncer no Brasil. Disponível em: http://www1.inca.gov.br/conteudo_view.asp?ID=18 >. Acesso em: 10 nov 2014.

INCAb – INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Tratamento pelo Sistema Único de Saúde. Disponível em http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/cancer/site/tratamento/ondetratarsus >. Acesso em: 10 nov 2014.

LINHARES, S.; GEWANDSZNAJDER, F. Biologia hoje. 1ª edição. Editora Ática. 2012

MOUTINHO ILS, BERTGES LC, ASSIS RVC. Prolonged use of food dye tartrazine (FD&C yellow nº5) and its effects on the gastric mucosa of Wistar rats. Brazilian Journal of Biology, 2007; 67:141-5

OMS. Organização mundial da Saúde. Relatórios Mundiais da Saúde. Disponível em  http://www.who.int/eportuguese/publications/WHR2010.pdf?ua=1 >. Acesso em: 10 nov 2014.

PEREIRA R. A.; KOIFMAN S. Associação entre fatores da dieta e tumores de cérebro em adultos: uma revisão da literatura. Caderno de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 17(6):1313-1334, nov-dez, 2001

POLÔNIO, M. L. T.; PERES, F. Food additive intake and health effects: public health challenges in Brazil Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(8):1653-1666, ago, 2009

SANTOS, P.C.B. Estresse Oxidativo. In: WAITZBERG, D.L. (Ed.) Dieta, Nutrição e Câncer. São Paulo: Atheneu, 2004, p. 98-105.

RUBIN, E.; RUBIN, R.; AARONSON, S. Neoplasia. In: RUBIN, E.; GORSTEIN, F.; RUBIN, R.; SCHWARTING, R.; STRAYER, D. (Ed) Rubin – Patologia – Bases Clinicopatológicas da Medicina. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2006, p. 171-220.

 

Juliana Dalbó

Juliana Dalbó

Biomédica, formada pela UNES - Faculdade do Espírito Santo, com especialização em Gestão em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Universidade Cândido Mendes - UCAM. Atualmente cursa doutorado em Biotecnologia na Universidade do Espírito Santo pela RENORBIO - Rede Nordeste de Biotecnologia.
Juliana Dalbó

Juliana Dalbó

Biomédica, formada pela UNES - Faculdade do Espírito Santo, com especialização em Gestão em Saúde Pública e Meio Ambiente pela Universidade Cândido Mendes - UCAM. Atualmente cursa doutorado em Biotecnologia na Universidade do Espírito Santo pela RENORBIO - Rede Nordeste de Biotecnologia.

%d blogueiros gostam disto: