As vacas produziram poderosos anticorpos contra o HIV

Um herói improvável emergiu na busca do combate ao HIV: a vaca. Quatro vacas injetadas com um tipo de proteína do HIV produziram rapidamente anticorpos poderosos contra o vírus, informam os pesquisadores. Aprender como induzir anticorpos semelhantes em seres humanos pode ser fundamental para uma vacina de HIV bem sucedida.

Os anticorpos, chamados de anticorpos amplamente neutralizantes, podem parar a infecção de uma variedade de tipos de HIV. As vacas geraram estes anticorpos após 42 dias de imunização, os pesquisadores relatam na revista Nature. Para uma pequena porcentagem de pessoas estimaram que o desenvolvimento desses anticorpos, após uma infecção natural, demora vários anos.

O trabalho identifica “um método novo e muito mais eficiente para gerar anticorpos amplamente ativos contra o HIV”, diz o imunologista Justin Bailey, da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, que não esteve envolvido no estudo.

Fazer uma vacina contra o HIV tem se mostrado difícil porque o vírus muda o tempo todo. Diferentes tensões existem em todo o mundo, e o vírus ainda se transforma dentro do corpo de uma pessoa infectada. Na maioria das vezes, as pessoas desenvolvem anticorpos específicos de uma cepa, mas ineficazes contra outras. As vacinas contra o HIV testadas até agora não levaram à produção de anticorpos amplamente neutralizantes.

Cerca de 1% das pessoas infectadas pelo HIV eventualmente geram anticorpos amplamente neutralizantes que são especialmente potentes e eficazes contra muitos tipos de HIV. O desenvolvimento desses anticorpos não parece ajudar as pessoas infectadas. Mas quando administrados em macacos antes da exposição a um vírus semelhante ao HIV, os anticorpos previniram a infecção.

Os anticorpos amplamente neutralizantes específicos para o HIV possuem algumas características peculiares, uma delas é a presença de um longo trecho de aminoácidos que se destaca da superfície do anticorpo. Esta parte saliente do anticorpo liga-se a um sítio viral que permanece o mesmo entre as cepas, porque o vírus precisa dele para entrar na célula. O excesso de açúcares na superfície do HIV dificulta o acesso ao local de ligação viral. Um alongamento mais longo de aminoácidos parece ser capaz de perfurar “e alcançar, quase como o longo braço da lei”, diz Vaughn Smider, um imunologista molecular no Scripps Research Institute em La Jolla, Califórnia, EUA.

Em pessoas infectadas pelo HIV que desenvolvem anticorpos amplamente neutralizantes, esta região de anticorpos – chamada HCDR3 – tem cerca de 30 aminoácidos, cerca de duas vezes mais que o usual para anticorpos humanos. E assim surgiu a ideia de imunizar vacas. Uma vez que as vacas naturalmente fazem mais HCDR3s, explica Smider, talvez tenham procurado essa resposta para o HIV.

Smider e colegas pegaram o soro – sangue com as células removidas, mas com os anticorpos – de quatro vacas imunizadas e testaram contra diferentes tipos de vírus HIV em um tubo de ensaio. Todas as vacas desenvolveram anticorpos amplamente neutralizantes. Os pesquisadores então testaram os anticorpos de uma vaca em um número ainda maior de tipos de vírus. Após 381 dias, os anticorpos desta vaca impediram 96% dos 117 tipos de HIV de infectarem células em uma placa de Petri. Os pesquisadores também isolaram um anticorpo desta vaca que tinha uma HCDR3 longa de 60 aminoácidos que parou a infecção em 72% dos tipos de HIV.

Se os pesquisadores pudessem induzir anticorpos com HCDR3s longos em humanos, “então isso poderia ser a base para obter uma vacina para esse vírus”, diz Smider. “Você precisa de um passo antes da imunização que ajuda a expandir os anticorpos raros”. Uma vez que as vacas são tão boas em produzir anticorpos amplamente neutralizantes, também pode ser possível transformar o trabalho manual da vacina em drogas para o tratamento do HIV, se os anticorpos bovinos forem efetivos para impedir o vírus em outros animais, diz ele.

Matéria originalmente traduzida da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
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