Embriões matam o tecido masculino para se tornarem femininos

Uma proteína chamada COUP-TFII é necessária para eliminar o tecido reprodutivo masculino de embriões de camundongos fêmeas, de acordo com um estudo publicado na revista Science. Durante décadas, as mulheres foram consideradas o sexo “padrão” em mamíferos. A nova pesquisa derruba essa ideia, mostrando que fazer órgãos reprodutivos femininos é um processo ativo, envolvendo o desmantelamento de um tecido masculino primitivo chamado ducto de Wolff.

Nos machos, o ducto de Wolff se desenvolve nas partes necessárias para ejacular o esperma, incluindo o epidídimo, os ductos deferentes e as vesículas seminais. Nas fêmeas, um tecido embrionário similar, chamado de ducto de Müller, é desenvolvido para formar as tubas uterinas, o útero e a vagina. Ambos os tecidos dos dois ductos estão presentes em embriões.

Um estudo do endocrinologista francês Alfred Jost, há 70 anos, indicou que os testículos produzem testosterona e um hormônio anti-Müller, para manter o ducto de Wolff e suprimir o desenvolvimento do tecido feminino. Jost sugeriu que, se esses hormônios estão em falta, o ducto de Wolff se degrada e um embrião, por padrão, se desenvolve como feminino.

Essa é a história escrita nos livros didáticos, diz Amanda Swain, bióloga do desenvolvimento do Institute of Cancer Research, em Londres. Mas o novo estudo “demonstra que as mulheres também têm uma forma de garantir que você não tenha os ductos errados”, diz Swain, que escreveu um comentário na mesma edição da Science.

O biólogo Humphrey Yao e seus colegas não estavam tentando testar a hipótese de Jost. Na verdade, os pesquisadores queriam saber como os tecidos na parte externa desses ductos iniciais se comunicavam com o revestimento dos tubos, diz Yao, do Instituto Nacional de Ciências da Saúde Ambiental no Research Triangle Park, EUA.

A proteína COUP-TFII é produzida naquela camada externa, e Yao suspeitava que ela estava envolvida na comunicação com o revestimento. Os pesquisadores bloquearam a comunicação no tecido reprodutivo dos primeiros embriões de camundongos fêmeas, removendo o gene que produz a COUP-TFII. Para a surpresa da equipe, o ducto de Wolff continuou existindo nos camundongos fêmeas, juntamente com o ducto feminino de Müller. Isso não deveria acontecer, de acordo com os livros didáticos.

Procurando por uma explicação, Yao e seus colegas testaram se a remoção da COUP-TFII alterava os ovários para produzir testosterona, como nos testículos. A testosterona poderia alimentar o tecido masculino e permitir que ele persistisse, pensaram os pesquisadores. “Não, o ovário é como um ovário. Não há nada de errado com isso”, diz Yao. “Nós ficamos chocados. Isso não pode estar acontecendo”. Outros experimentos demonstraram que nenhuma testosterona perdida era responsável pelo fato do tecido masculino se aderir.

Em vez disso, a COUP-TFII parece ser o chefe de uma equipe de demolição bioquímica, destruindo o ducto de Wolff nas fêmeas. Sem as ordens dessa proteína, a equipe de demolição fica inoperante e o ducto masculino não é destruído. Os sinais que desencadeiam a produção e a atividade da COUP-TFII ainda não são entendidos.

“Este estudo preenche um vazio na nossa compreensão do mecanismo de regressão do ducto de Wolff”, disseram Patricia Donahoe e David Pepin, biólogos da Harvard Medical School. Mais pesquisas são necessárias para entender como a proteína interage com hormônios masculinos para regular o desenvolvimento do trato reprodutivo, eles dizem.

Durante o estudo foram utilizados camundongos, mas a COUP-TFII provavelmente funciona da mesma maneira em outros mamíferos, inclusive humanos, diz Donahoe. As fêmeas raramente carregam remanescentes do ducto de Wolff, o que poderia levar a tumores. O oposto às vezes acontece, também nos homens, resultando em homens com órgãos reprodutivos femininos. Esses homens podem ser inférteis e terem outros problemas, como cistos. Levando isso em consideração, os pesquisadores devem procurar defeitos na COUP-TFII em pacientes com problemas reprodutivos, diz Donahoe.

Matéria originalmente traduzida da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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