O sistema imunológico do cérebro pode influenciar no ganho de peso

Manter o peso corporal não é simplesmente queimar todas as calorias consumidas em um dia. O cérebro desempenha um papel importante nesse processo. Ele determina o que você come, quanto e quando. De acordo com um novo estudo realizado em camundongos, as células imunológicas do cérebro também contribuem para isso. Ativar essas células pode fazer uma dieta gordurosa ainda mais “engordativa”. Livrar-se dessas células, conhecidas como microglia, pode fazer com que os animais comam menos e ganhem menos peso.

Essa microglia pode inflamar uma área específica do cérebro. E em camundongos, esse processo poderia fazer com que os animais ganhassem peso – mesmo quando não estivessem comendo uma dieta rica em gordura. “Eu acho isso realmente bom”, diz Kate Ellacott, que não estava envolvida no estudo. “Esta é a primeira vez que alguém mostra que se você mudar a forma como a microglia se comporta – se você torná-la mais inflamatória – você pode impactar o peso corporal”. Ellacott é uma neurocientista na Universidade de Exeter, na Inglaterra.

O sistema imunológico é uma coleção de células que podem se mover por todo o corpo para ajudar a combater infecções e danos. Quando uma parte do corpo é estressada ou ferida, a parte ferida envia “pedidos” de socorro químicos. Essas mensagens são como um alarme. Elas contam às células imunes onde está ocorrendo um problema e as células se dirigem para o local necessitado para que possam destruir células danificadas ou fagocitar germes.

Ao longo do caminho, as células imunes causam inflamação. Esta resposta pode incluir vermelhidão e inchaço. As pessoas muitas vezes pensam em inflamação como um joelho inchado ou a vermelhidão em torno de um corte. Aqui, Ellacott ressalta, o sistema imunológico trabalha para “restaurar o equilíbrio”. O sistema imunológico tenta “consertar os tecidos e voltá-los ao normal”, explica.

Mas às vezes, a inflamação se desenvolve à longo prazo, mesmo quando não é necessária. Essa inflamação crônica não precisa incluir vermelhidão, mas irá causar danos. “Se você tem uma doença em que a inflamação nunca desaparece, isso pode danificar o tecido”, ressalta Kate Ellacott. Uma das condições em que acontece a inflamação crônica é a obesidade. Ter uma dieta rica em gordura por muito tempo faz com que os animais ganhem peso e ativem suas células imunes, diz Joshua Thaler, um endocrinologista e neurocientista que trabalha na Universidade de Washington, em Seattle. Lá, sua equipe realizou este novo estudo.

O cérebro está cheio de células chamadas neurônios. Mas elas não estão sozinhas. Existe também uma variedade de outros tipos celulares. Por um tempo, os cientistas pensaram que algumas dessas células, chamadas glia, serviam apenas para apoiar os neurônios e mantê-los juntos. Mas a glia é muito mais do que apenas uma cola cerebral. Algumas dessas células, chamadas de microglia, atuam como um exército imune no cérebro. Elas se mudam para áreas feridas e podem ativar a inflamação quando as coisas não estão certas.

 

A microglia, como a que se mostra aqui, pode ser ativada por uma dieta rica em gordura. Posteriormente, pode promover um estado de inflamação crônica no cérebro. Créditos: TimoninaIryna/istockphoto.

A equipe de Thaler já descobriu que uma área do cérebro fica inflamada quando os camundongos mantém uma dieta rica em gordura. Chamada de hipotálamo, esta área do cérebro ajuda a regular o quanto camundongos – e as pessoas – comem. Eles até mostraram mudanças semelhantes nos cérebros de pessoas obesas.

A razão disso poderia ser a microglia presente no hipotálamo? Para responder a esta pergunta, Thaler e seus colegas alimentaram camundongos com uma dieta rica em gordura. Então eles deram a alguns desses camundongos uma droga que matou sua microglia. Sem essas células imunes, esses camundongos ganharam menos peso e comeram menos alimento. Mas perder a microglia não teve efeito em camundongos que estavam tinham uma dieta com pouca gordura.

Os pesquisadores queriam garantir que a microglia causasse a inflamação que levava ao ganho de peso. Então eles excluíram um gene – um conjunto de instruções celulares. A microglia usa este gene para produzir os seus sinais inflamatórios. Os camundongos tratados ganharam menos peso em uma dieta rica em gordura, assim como nos camundongos sem microglia.

Se interromper sinais inflamatórios faz com que os camundongos ganhem menos peso, uma inflamação exacerbada pode ter o efeito oposto. O grupo de Thaler decidiu testar essa ideia. Eles trabalharam com camundongos que não conseguiram produzir uma importante molécula de combate à inflamação, o que fez com que eles desenvolvessem inflamação em seus cérebros. Eles também ganharam peso – mesmo quando não estavam com dieta rica em gordura. Isso confirmou que a inflamação cerebral sozinha poderia contribuir para a obesidade.

Thaler e seus colegas publicaram suas descobertas na revista Cell Metabolism.

 

Chamando a cavalaria imune

A microglia são células presentes no cérebro em tempo integral. “Elas estão sempre lá”, diz Ellacott. Essas células se movem para onde o cérebro precisa delas. Quando os camundongos mantém uma dieta rica em gordura, o hipotálamo recruta a microglia. E essas células imunes chamam reforços. No novo estudo, algumas dessas células imunes recrutadas vieram da medula óssea dos camundongos.

Geralmente, as células imunes na medula não podem chegar ao cérebro. Há uma barreira entre o sangue e o cérebro que os impede. Essa barreira hematoencefálica existe para evitar que células potencialmente perigosas e outras substâncias estranhas entrem. De alguma forma, uma dieta rica em gordura permite que essas células de reforço presentes na medula óssea cheguem ao cérebro.

Alguns cientistas já viram células imunes entrarem em outros órgãos após uma dieta rica em gordura, destaca Thaler. Mas agora o seu grupo mostrou que isso também acontece no cérebro. “Eu não acreditava que as células imunes iriam para o cérebro”, lembra ele. “Foi uma surpresa”.

Os cientistas podem algum dia reduzir a inflamação atuando sobre a microglia, diz Ellacott. Se eles desenvolverem uma droga que funciona dessa forma nas pessoas, os cientistas podem usá-la para tratar todos os tipos de doenças cerebrais ligadas à inflamação e não apenas à obesidade.

A microglia no cérebro pode contribuir para o ganho de peso, diz Thaler. “Mas, claramente, a história não se resume a elas”. Desligar a microglia, ou impedir que elas provoquem pedidos de socorro inflamatório, faz com que os camundongos ganhem menos peso. Mas no final, esses camundongos ainda ficaram com excesso de peso. E enquanto os camundongos com inflamação no cérebro ganharam peso mesmo em uma dieta com baixo teor de gordura, ele observa que eles nunca ficaram tão gordos quanto os camundongos que estavam em uma dieta rica em gordura.

O sistema imunológico do cérebro pode fazer parte da história da obesidade, diz Thaler, “mas claramente existem mais coisas que precisamos aprender”.

Matéria originalmente traduzida da revista Science News for Students.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
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