Vírus comum pode ser o culpado pela doença celíaca

Um vírus comum e geralmente inofensivo pode desencadear a doença celíaca, de acordo com um estudo publicado por uma equipe internacional de pesquisadores na revista ScienceA infecção com um reovírus poderia fazer com que o sistema imune reagisse ao glúten como se ele fosse um patógeno perigoso, ao invés de uma proteína alimentar inofensiva.

Em um estudo em camundongos, pesquisadores descobriram que o reovírus T1L engana o sistema imunológico para montar um ataque contra moléculas inofensivas de alimentos. Terence Dermody, um virologista na Universidade de Pittsburgh, e seus colegas, descobriram que primeiramente o vírus bloqueia a resposta regulatória do sistema imunológico, que geralmente indica ao sistema imune que certas substâncias não nativas, como proteínas alimentares, estão “liberadas”. Em seguida, o vírus provoca uma resposta inflamatória nociva.

“Durante décadas, os vírus foram suspeitos de serem os desencadeadores de doenças auto-imunes ou relacionadas a alergias alimentares”, diz Herbert Virgin, imunologista viral na Escola de Medicina da Universidade de Washington em St. Louis. Este estudo fornece novos dados sobre como uma infecção viral pode mudar a resposta do sistema imunológico aos alimentos, diz Virgin, que não estava envolvido no estudo.

Os reovírus não são mortais. Quase todo mundo já foi infectado por um reovírus, e quase ninguém fica doente, diz Dermody. Mas se a primeira exposição a um alimento com glúten ocorre durante a infecção, o vírus pode fazer com que o sistema imunológico aja contra a proteína alimentar, de acordo com as descobertas dos pesquisadores.

O sistema imunológico pode permitir que substâncias estranhas, como proteínas alimentares, atravessem o corpo de forma pacífica ou então ele pode atacar essas substâncias. Em pessoas com doença celíaca, o glúten é tratado como um patógeno prejudicial. A resposta do sistema imunológico prejudica o revestimento do intestino delgado, causando sintomas como diarreia sanguinolenta.

A doença celíaca tem sido associada a duas características genéticas. Embora 30 a 40% das pessoas nos Estados Unidos tenham uma ou ambas as características, apenas 1% da população foi diagnosticada com a doença. Essa disparidade sugere que algum fator ambiental o desencadeie.

Dermody e colegas descobriram que o reovírus T1L pode ser um desses gatilhos. Nos camundongos projetados para ter uma dessas características genéticas, o vírus parece enganar o sistema imunológico ao ver o glúten como inimigo. A interação chave ocorre nos gânglios linfáticos mesentéricos, onde o glúten encontra-se com células dendríticas, que são como as “condutoras orquestrais” do sistema imunológico, de acordo com Dermody. Essas células determinam se o sistema imune vai ignorar uma substância ou apresentar uma defesa contra ela.

Mas o vírus também se envolve com as células dendríticas, enganando as células ao fazê-las pensar que o glúten, como o vírus, é de alguma forma perigoso. E então, o sistema imunológico ataca o glúten. Dermody e seus colegas também descobriram que o reovírus estimulou a atividade de uma enzima chamada transglutaminase tecidual. Em pessoas com doença celíaca, a enzima torna o glúten capaz de desencadear uma resposta nociva do sistema imunológico.

Os pacientes celíacos também apresentaram níveis mais altos de anticorpos contra reovírus do que os encontrados em pessoas sem a doença. Dermody não pensa que o reovírus T1L seja o único vírus que possa estimular a doença celíaca. Pesquisas futuras analisarão o potencial de outros vírus e também determinarão se o T1L é um verdadeiro desencadeante da doença em seres humanos. Se assim for, uma vacina de reovírus poderia ser desenvolvida para crianças em risco, o que poderia potencialmente bloquear o desenvolvimento da doença celíaca, “e isso seria bastante surpreendente”, diz Dermody.

Matéria traduzida da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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