Na doença de Parkinson, uma forma perigosa de dopamina pode ajudar a destruir as células nervosas

A dopamina, um neurotransmissor que ajuda a manter os movimentos do corpo fluidos, pode iniciar uma reação em cadeia tóxica que culmina na morta das células nervosas que a produzem, sugere um novo estudo.

Ao estudar, em placas de Petri, neurônios humanos derivados de pacientes com Parkinson, pesquisadores descobriram que uma forma prejudicial de dopamina pode causar diversos danos nessas células nervosas. O resultado, publicado na revista Science, “reúne múltiplas peças do enigma”, diz a neurocientista Teresa Hastings, da Faculdade de Medicina da Universidade de Pittsburgh.

A descoberta também sugere um tratamento potencial para as 10 milhões de pessoas que se estima ter Parkinson em todo o mundo: houve menos dano celular quando alguns dos neurônios receberam um tratamento inicial com antioxidantes (moléculas que podem recolher substâncias químicas nocivas dentro das células).

O co-autor do estudo, Dimitri Krainc, neurologista e neurocientista da Northwestern University Feinberg School of Medicine, em Chicago – EUA, e seus colegas realizaram biópsias da pele de pessoas saudáveis ​​e de pessoas com um dos dois tipos da doença de Parkinson (hereditária ou espontânea). Os pesquisadores então induziram essas células da pele a se tornarem neurônios produtores de dopamina. Essas células eram semelhantes às encontradas na substância negra (ou nigra), a região do cérebro relacionada ao movimento que se degenera no Parkinson.

Após os neurônios portadores de uma mutação que faz com que a forma hereditária do Parkinson crescerem em uma placa de Petri por 70 dias, os pesquisadores notaram algumas mudanças preocupantes nas mitocôndrias dessas células. Os níveis de uma forma nociva de dopamina, conhecida como dopamina oxidada, começaram a aumentar nessas organelas, atingindo altos níveis no dia 150. Os neurônios derivados de pessoas com a forma mais comum e esporádica de Parkinson mostraram um aumento semelhante, começando no dia 150. As células derivadas de pessoas saudáveis ​​não acumularam dopamina oxidada.

Esta forma perigosa de dopamina pareceu dar início a outros tipos de problemas celulares, como os defeitos nos lisossomos das células (verdadeiras máquinas de limpeza celular), que surgiram logo em seguida. O mesmo ocorreu com a acumulação de uma proteína chamada alfa-sinucleína, que é conhecida por desempenhar um papel importante na doença de Parkinson.

As manchas escuras da neuromelanina (seta) aparecem dentro das células de 90 dias de idade, derivadas de uma pessoa portadora de uma mutação relacionada ao Parkinson. Esses depósitos, visualizados por microscopia eletrônica, contêm uma forma prejudicial de dopamina. Créditos: L.F. BURBULLA ET AL/SCIENCE 2017.

Essas descobertas são “evidências experimentais diretas de células humanas de que o próprio produto químico perdido na doença de Parkinson contribui para o seu próprio desaparecimento”, diz o neuroquímico analítico Dominic Hare, do Instituto Florey de Neurociências e Saúde Mental em Melbourne, Austrália. Como essas células produzem dopamina, elas são mais suscetíveis às potenciais forças destrutivas da dopamina, diz ele.

Quando os pesquisadores trataram neurônios portadores de uma mutação que causa o Parkinson hereditário com vários tipos diferentes de antioxidantes, o dano foi diminuído. Para ser útil nas pessoas, os antioxidantes precisam atravessar a barreira hematoencefálica (o que é uma tarefa difícil) e alcançar as mitocôndrias no cérebro. Isso precisaria acontecer cedo, provavelmente mesmo antes que os sintomas apareçam, diz Krainc.

“Sem este modelo humano, não teríamos sido capazes de desvendar isso”, diz Krainc. Em placas de Petri com neurônios de camundongos com mutações relacionadas ao Parkinson, a dopamina não iniciou a mesma cascata tóxica, uma diferença que pode ser justificada pelo fato dos neurônios humanos conterem mais dopamina do que neurônios de camundongos. Os neurônios produtores de dopamina em camundongos e humanos “têm algumas diferenças muito fundamentais”, diz Krainc. E essas diferenças podem ajudar a explicar por que descobertas em camundongos não se traduziram em tratamentos para pessoas com Parkinson, diz ele.

Ao longo das últimas décadas, os cientistas têm acumulado evidências de que a dopamina oxidada pode contribuir para a doença de Parkinson, diz Hastings. Com essa informação, novos resultados são esperados, ela diz, mas ainda assim espera-se a confirmação dessa ideia.

Esses eventos celulares tóxicos ocorreram em placas de Petri, e não em cérebros reais. “As culturas de células não são a recriação perfeita do que está acontecendo no cérebro humano”, adverte Hare. Mas esses tipos de experimentos são “a melhor coisa para monitorar as mudanças químicas” nestes neurônios, diz ele.

Matéria traduzida da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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