Fungos intestinais podem estar ligados à obesidade e distúrbios inflamatórios

Fungos podem afetar a saúde intestinal de maneiras inesperadas, de acordo com uma nova pesquisa.

Dietas com alto teor de gordura podem alterar a relação entre bactérias e fungos no intestino de camundongos, contribuindo para a obesidade, como informaram os pesquisadores na revista mSphere. Em um trabalho independente, pesquisadores relataram que um fungo se associa a dois tipos de bactérias para alimentar a inflamação intestinal em pessoas com doença de Crohn.

Juntos, os estudos fazem parte de um crescente corpo de pesquisas, indicando que as relações entre os reinos de bactérias e fungos podem afetar a saúde, diz David Andes, um biólogo de fungos da Faculdade de Medicina e Saúde Pública da Universidade de Wisconsin, nos EUA. Andes não estava envolvido em nenhum dos estudos mencionados.

Os cientistas já descreveram ligações entre problemas de saúde, incluindo obesidade e bactérias intestinais – muitas vezes chamadas de microbioma. Mas pouco se sabe sobre o papel da mistura de fungos do intestino (o micobioma). “Para termos uma visão geral”, diz Andes, “precisamos começar a olhar para o micobioma, além do microbioma”.

Como parte deste quadro, a pediatra e bióloga de fungos Cheryl Gale, da Universidade de Minnesota em Minneapolis, queria saber se as dietas ricas em gordura mudam as comunidades de fungos, como fazem as misturas bacterianas.

A equipe de Gale alimentou camundongos com uma comida com alto teor de gordura. Como esperado, os camundongos submetidos a essa dieta ganharam peso, e a mistura de bactérias no intestino mudou.  As bactérias Firmicutes, associadas à obesidade, aumentaram, enquanto a bactéria Bacteroidetes diminuiu em abundância.

Os fungos também mudaram. Os camundongos alimentados com comida rica em gordura tinham menos leveduras de Saccharomyces cerevisiae e mais Candida albicans em seu intestino do que camundongos que comeram comida normal. S. cerevisiae é uma levedura usada na fabricação de vinho, cerveja e pão, e tem sido associada com boa saúde. A C. albicans é um organismo que causa muitas infecções fúngicas.

A equipe de Gale também descobriu que as relações entre bactérias e fungos mudaram quando as dietas dos camundongos foram alteradas. Sua equipe ainda não pode mostrar uma conexão direta entre a composição dos fungos intestinais e a obesidade, mas suspeita que as interações mutantes entre bactérias e fungos podem levar o hospedeiro a ganhar peso.

Fonte: C.L. HAGER AND M.A. GHANNOUM/DIGESTIVE AND LIVER DISEASE 2017

Os resultados são “muito, muito preliminares”, diz Andes. “Há muitas teorias para testar”.

Enquanto isso, outros pesquisadores estão investigando como uma tríade microbiana pode contribuir para uma síndrome do intestino irritável. As pessoas com doença de Crohn têm uma superabundância de Candida tropicalis, juntamente com Escherichia coli e Serratia marcescens , dizem Christopher Hager e Mahmoud Ghannoum, da Case Western Reserve University School of Medicine, em Cleveland.

Quando cultivados separadamente em placas de Petri, os organismos “ficaram bem”, diz Hager. “Eles formaram pequenas colônias. Mas quando misturaram os três juntos, eles acabaram saindo do controle. Eles formaram biofilmes intensos e robustos”. Biofilmes são comunidades microbianas estruturadas que podem proteger bactérias de antibióticos, tornando-as difíceis de matar.

Por si só, a C. tropicalis cresce como uma levedura de brotamento inofensivo, diz Hager. Mas na presença de bactérias, o fungo se estica em filamentos longos. A microscopia eletrônica mostrou que as E. coli se fundem ao crescimento dos fungos. Enquanto isso, S. marcescens faz cordas de proteínas que de alguma forma estabilizam o biofilme. Essa é uma boa notícia para os micróbios: sua parceria permite que eles superem bactérias e fungos solitários.

Mas os biofilmes são más notícias para o intestino. Os camundongo que abrigavam os três organismos desenvolveram inflamação intestinal, um sintoma da doença de Crohn e outros distúrbios intestinais.

Hager e Ghannoum propõem dar antifúngicos à pacientes com doença de Crohn e, em seguida, adicionar fungos benéficos, como S. cerevisiae, podendo criar um equilíbrio de microrganismos mais saudável no intestino.

Ainda é muito cedo para que os médicos mudem o tratamento dos pacientes com base nesses estudos, diz Andes. Mas uma compreensão completa da saúde deve incluir todos os reinos da vida, ele diz.

Matéria traduzida de Science News

Sanderson Calixto

Sanderson Calixto

Biólogo com ênfase em Biologia Celular e Saúde e mestrando em Biociências e Biotecnologia pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF. Possui experiência na área de Imunofarmacologia de Produtos Naturais com ênfase na avaliação da atividade anti-inflamatória e antimicobacteriana.
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Biólogo com ênfase em Biologia Celular e Saúde e mestrando em Biociências e Biotecnologia pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro - UENF. Possui experiência na área de Imunofarmacologia de Produtos Naturais com ênfase na avaliação da atividade anti-inflamatória e antimicobacteriana.

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