Mutações aleatórias desempenham um papel importante no câncer, de acordo com novo estudo

Pesquisadores identificaram novos inimigos na guerra contra o câncer: aqueles que já estão dentro das células e que ninguém pode evitar.

Erros aleatórios, como os que acontecem na divisão de células-tronco, são responsáveis ​​por cerca de dois terços das mutações em células cancerígenas, de acordo com a publicação de pesquisadores da Universidade Johns Hopkins na revista Science. Em todos os tipos de câncer, fatores ambientais e de estilo de vida, como tabagismo e obesidade, contribuem com 29% das mutações do câncer, e 5% são hereditários.

Essa descoberta desafia a ideia comum de que o câncer é produto da hereditariedade e do meio ambiente. O geneticista Bert Vogelstein diz que há uma terceira causa para as mutações, e ela é importante.

Mutações aleatórias se acumulam ao longo do tempo e ajudam a explicar por que o câncer atinge com mais frequência os idosos. Saber que “o inimigo” vai atacar de dentro, mesmo quando as pessoas se protegem contra ameaças externas, faz com que pensemos que a detecção e o tratamento precoce do câncer merecem ainda mais atenção, diz Vogelstein.

Vogelstein e o biomatemático Cristian Tomasetti, propuseram em 2015 que as mutações aleatórias são a razão pela qual alguns órgãos são mais propensos ao câncer do que outros. Por exemplo, as células-tronco estão constantemente renovando o revestimento intestinal do cólon, que desenvolve tumores mais frequentemente do que o cérebro, onde a divisão celular é incomum. Esse relatório foi controverso na época, pois muitos entenderam que ele afirmava que a maioria dos cânceres eram resultado de “má sorte”. A análise não incluiu câncer de mama e de próstata, que são muito comuns. Alguns cientistas ainda disseram que incluir esses tipos de câncer poderia alterar os resultados do estudo em questão. Além disso, como só haviam sido analisados casos de câncer nos Estados Unidos, os críticos consideraram que o trabalho não levou em conta lugares do mundo onde diferentes fatores ambientais, como infecções, afetam o desenvolvimento do câncer.

No novo estudo, Vogelstein, Tomasetti e Lu Li, da Universidade Johns Hopkins, examinaram os dados de 69 países sobre 17 tipos de câncer, desta vez incluindo os de mama e de próstata. Novamente, os pesquisadores encontraram uma forte ligação entre o câncer e os tecidos que tem muitas células-tronco se dividindo. A equipe também usou dados de DNA e estudos epidemiológicos para calcular as proporções de mutações em células cancerígenas causadas pela hereditariedade ou por fatores ambientais e de estilo de vida. As mutações restantes foram atribuídas a erros aleatórios – incluindo erros de síntese, inserções ou deleções de genes, alterações epigenéticas (alterações de marcas químicas no DNA ou proteínas que afetam a atividade gênica) e rearranjos de genes. Tais erros inevitavelmente ocorrem quando as células se dividem.

 

Câncer oportunista

Para muitos órgãos, a maior parte das mutações que levam ao câncer provêm de erros aleatórios ocorridos no DNA quando as células se dividem (imagem abaixo, ao centro), ao invés de causas ambientais (à direita) ou a fatores herdados (à esquerda).

Cânceres descritos no diagrama: B, cérebro; Bl, bexiga; Br, mama; C, cervical; CR, colorretal; E, esôfago; HN, cabeça e pescoço; K, rim; Li, fígado; Lk, leucemia; Lu, pulmão; M, melanoma; NHL, linfoma não-Hodgkin; O, ovário; P, pâncreas; S, estômago; Th, tireóide; U, útero. Créditos: C. TOMASETTI ET AL/SCIENCE 2017.

Normalmente, o câncer acontece após uma célula acumular muitas mutações. Algumas pessoas terão acumulado uma variedade de mutações associadas ao câncer, mas não sofrerão câncer até que algum estímulo final atinja a célula, tornando-a maligna. Para alguns tumores, todas as mutações podem ser o resultado de erros de divisão celular. Não há como evitar esses cânceres, diz Vogelstein. Outras malignidades podem surgir como resultado de diferentes combinações de mutações hereditárias, ambientais e aleatórias. O câncer de pulmão e outros tipos de tumores que estão fortemente associados a mutações causadas pelo meio ambiente podem ser evitados, evitando-se carcinógenos, mesmo quando a maioria das mutações que estimulam o crescimento do câncer surgem de erros aleatórios, diz Tomasetti.

“Eles estão se aventurando em um novo território”, diz Giovanni Parmigiani, um bioestatístico da Harvard T.H. Chan School of Public Health. Tomasetti, Li e Vogelstein são os primeiros a estimar rigorosamente a contribuição do meio ambiente, hereditariedade e erros de cópia no DNA para o câncer, diz ele. “Talvez as estimativas melhorem no futuro, mas as deles parecem ser um ponto de partida muito sólido”.

Agora que os pesquisadores de Hopkins apontaram, a relação entre a divisão celular e o câncer parece óbvia, diz o físico biológico Bartlomiej Waclaw, da Universidade de Edimburgo. “Eu não acho que a existência dessa correlação seja surpreendente”, diz ele. “O que é surpreendente é o fato de não ser mais forte”.

Alguns tecidos desenvolvem cânceres mais (ou menos) frequentemente do que outros tecidos com números similares de divisões celulares, apontaram Waclaw e Martin Nowak (da Universidade de Harvard) em um comentário sobre o estudo de Hopkins, publicado na mesma edição da Science. Isso sugere que alguns órgãos se saem melhores ao evitar o câncer. Descobrir como esses tecidos evitam o câncer pode levar a novas maneiras de prevenir tumores em outros lugares do corpo, sugere Waclaw.

Outros pesquisadores dizem que a equipe de Hopkins é culpada por um raciocínio defeituoso. “Eles estão assumindo que apenas os tecidos que têm grande atuação de células-tronco têm altas taxas de câncer, que um está causando o outro”, diz a pesquisadora de câncer, Anne McTiernan, do Fred Hutchinson Cancer Research Center, nos EUA. “Neste novo artigo, eles adicionaram dados de outros países, mas não se afastaram desse pensamento tendencioso”.

Tomasetti e seus colegas basearam os cálculos em dados da Cancer Research UK, que sugerem que 42% dos cânceres são evitáveis. Os cânceres preveníveis são aqueles para os quais as pessoas podem evitar um fator de risco (como a exposição desprotegida ao sol ou o uso de câmaras de bronzeamento) ou então adotar medidas positivas para diminuir os riscos de câncer, como exercitar-se regularmente e comer frutas e vegetais. Mas essas estimativas podem não ser precisas, diz McTiernan. “Na realidade, é muito difícil medir exposições ambientais, então nossas estimativas de prevenção são provavelmente muito subestimadas”.

Waclaw diz que atribuir tantas mutações de câncer ao acaso parece ir contra às mensagens de saúde pública e que algumas pessoas podem achar que essa aleatoriedade está errada… pois elas passam muito tempo tentando prevenir o câncer, então é difícil acreditar que pode não adiantar. “É importante considerar a aleatoriedade, ou a má sorte, que vem com a divisão celular”, diz ele.

Na verdade, Tomasetti e Vogelstein enfatizam que suas descobertas são compatíveis com as recomendações de prevenção do câncer. Evitar fumar, utilizar câmaras de bronzeamento, obesidade e outros agentes cancerígenos conhecidos podem impedir as mutações “ambientais” que se combinam com mutações hereditárias e aleatórias para deixar as células mais propícias ao desenvolvimento do câncer. Sem a exposição a esses fatores ambientais, os tumores podem ser evitados ou muito atrasados.

As pessoas com câncer podem ter algum conforto com o estudo, diz Elaine Mardis, uma geneticista do Nationwide Children’s Hospital, nos EUA. “Talvez a mensagem positiva aqui é que, além dos fatores de risco conhecidos, como o tabagismo, exposição à radiação e obesidade, há um componente do câncer que é simplesmente uma consequência de ser humano”.

Matéria traduzida da revista Science News.

Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
Vinicius Mussi

Vinicius Mussi

Capixaba, graduado em Biomedicina, com especialização em Saúde Pública e mestre em Biociências e Biotecnologia pela UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.

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